Acordou, escovou os dentes, saiu, fez as compras, almoçou. Sozinha. Não morava com ninguém, não tinha planos para aquela noite, não conseguia parar de pensar sobre aquele assunto que lhe fazia doer a cabeça. Lavou a louça, tirou um cochilo, estudou, pensou, chorou. Sozinha.
Ela sempre se considerou independente, desde o dia em que saíra da casa dos pais e fora estudar em outra cidade. Mas nunca pensou que independência resultaria em mais solidão. E mais solidão resultaria em depressão.
Tomou um remédio para a dor de cabeça. Pensou... Talvez mais alguns deles, misturados com aquela garrafa de uísque que tinha guardada no armário... Da última vez que fizera isso, tinha 16 anos. Acabou internada. Doeu o estômago ao acordar no hospital, três dias depois do coma. Doeu a cabeça. Os pulmões. Tudo. Mas foram três dias sem nada. Sem rotina, sem dores, sem pensamentos. Só respirando. Era essa a sensação que ela queria ter de volta. Naquela ocasião, tudo doera depois, verdade, mas a essa altura, o que era mais uma dor?
"Egoísmo, é isso que é." Pegou apenas um comprimido, fechou o recipiente,e virou um copo d'água para descer-lhe o remédio. Não valia a pena ser egoísta assim, de novo. Fechou os olhos e apertou-os de leve contra o crânio, numa tentativa desesperada de fazer a dor parar. Enxaqueca maldita.
Foi até a janela e olhou a paisagem: carros. Prédios. Cheiro de fumaça. Urbanização. Respirou fundo, e deu um sorriso para si mesma. A dor de cabeça começara a sumir, aos poucos, como tudo na sua vida fazia. Ela sempre evitava tudo. Era muito mais fácil e mais cômodo para ela. Egoísmo. Ela era uma pessoa egoísta em sua essência. Mas não ouse assumir, por tal fato, que ela, portanto, não pensava nos outros. Ligava muito para os outros. E ligava para o fato de que seu egoísmo os afetava, e somente por isso, controlava-se. O celular tocou. Atendeu, relutante. Desligou alguns minutos depois. Pronto. Tinha planos para a noite; sairia com os amigos. Uma onda de nervosismo se espalhou pelo estômago até os pelos do braço se arrepiarem. A expectativa: será que hoje aconteceria?
Não. Não aconteceria.
Porque ela era burra. Burra ao ponto de se afastar das pessoas que faziam-lhe bem, e hipócrita ao ponto de se dar ao luxo de sentir-se sozinha após isso.
Ruim sem ninguém, pior com alguém. Assim era ela.
Fosse isso proposital ou não.
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