quarta-feira, 28 de setembro de 2011

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sal.

Creio então que assim morrerei, por fim, envenenada pela minha mente; traidora, cruel, confusa. Veneno ácido e doce, esse que vejo. Confuso e sincero.
E não tenho meu antídoto, o de sempre: escrever. Nada me sai, nada convém à situação. A frustração parece apenas acelerar o efeito do veneno, que me deixa ainda mais frustrada. Cíclico. Infinito... Complexo demais para a realidade. Talvez um dia eu me livre dele. Seremos, então, apenas eu e minhas mágoas. E minhas mágoas servirão para anestesiar-me, e deixarei por fim a vida tomar o rumo que bem entender. Sem conflitos entre minha mente e meu eu que vocês conhecem. Sem uma luta diária contra o torpor que tenta me possuir, a cada batida do meu coração.
Talvez sejam essas as palavras que eu procurava. Talvez não sejam. Ainda não sei. Estou tomando meu veneno, saboreando-o aos poucos, aproveitando o pouco doce que me mantém viva.

domingo, 5 de junho de 2011

Proposital?

Por algum motivo, ela sempre acabava se encontrando sozinha. Naquele dia não foi diferente.
Acordou, escovou os dentes, saiu, fez as compras, almoçou. Sozinha. Não morava com ninguém, não tinha planos para aquela noite, não conseguia parar de pensar sobre aquele assunto que lhe fazia doer a cabeça. Lavou a louça, tirou um cochilo, estudou, pensou, chorou. Sozinha.
Ela sempre se considerou independente, desde o dia em que saíra da casa dos pais e fora estudar em outra cidade. Mas nunca pensou que independência resultaria em mais solidão. E mais solidão resultaria em depressão.
Tomou um remédio para a dor de cabeça. Pensou... Talvez mais alguns deles, misturados com aquela garrafa de uísque que tinha guardada no armário... Da última vez que fizera isso, tinha 16 anos. Acabou internada. Doeu o estômago ao acordar no hospital, três dias depois do coma. Doeu a cabeça. Os pulmões. Tudo. Mas foram três dias sem nada. Sem rotina, sem dores, sem pensamentos. Só respirando. Era essa a sensação que ela queria ter de volta. Naquela ocasião, tudo doera depois, verdade, mas a essa altura, o que era mais uma dor?
"Egoísmo, é isso que é." Pegou apenas um comprimido, fechou o recipiente,e virou um copo d'água para descer-lhe o remédio. Não valia a pena ser egoísta assim, de novo. Fechou os olhos e apertou-os de leve contra o crânio, numa tentativa desesperada de fazer a dor parar. Enxaqueca maldita.
Foi até a janela e olhou a paisagem: carros. Prédios. Cheiro de fumaça. Urbanização. Respirou fundo, e deu um sorriso para si mesma. A dor de cabeça começara a sumir, aos poucos, como tudo na sua vida fazia. Ela sempre evitava tudo. Era muito mais fácil e mais cômodo para ela. Egoísmo. Ela era uma pessoa egoísta em sua essência. Mas não ouse assumir, por tal fato, que ela, portanto, não pensava nos outros. Ligava muito para os outros. E ligava para o fato de que seu egoísmo os afetava, e somente por isso, controlava-se. O celular tocou. Atendeu, relutante. Desligou alguns minutos depois. Pronto. Tinha planos para a noite; sairia com os amigos. Uma onda de nervosismo se espalhou pelo estômago até os pelos do braço se arrepiarem. A expectativa: será que hoje aconteceria?
Não. Não aconteceria.
Porque ela era burra. Burra ao ponto de se afastar das pessoas que faziam-lhe bem, e hipócrita ao ponto de se dar ao luxo de sentir-se sozinha após isso.
Ruim sem ninguém, pior com alguém. Assim era ela.
Fosse isso proposital ou não.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Vossa Mercê gostaria de uma dose de piedade?

Todos os dias, ela seguia sua rotina: acordar, escovar os dentes, tomar banho, café, ir ao trabalho. Trabalhava num escritório no centro da cidade de São Paulo, onde os carros, o barulho e os passos, não dormiam. Ela até que dormiria, se morasse numa cidade mais calma, onde as ruas eram pequenas e os carros eram poucos; onde as praças eram frequentadas por moradores honestos, não por vândalos ou mendigos. Talvez até tivesse um sítio. Uma cidade onde as pessoas realmente a ouvissem, quem sabe...?
Naquele dia, ela não queria seguir sua rotina. Queria uma mudança. Não do tipo "quero o dobro do queijo no meu lanche, por favor". Estava mais para "quero pintar meu cabelo de azul, colocar um piercing no nariz, e ter o olhar de todas as pessoas que entrarem por aquela mesma porta azul-clara do consultório de sempre". Claro que não o fez - não poderia arriscar perder o emprego. Então acordou, escovou os dentes, tomou banho, café, foi trabalhar. Como sempre fizera. Por que ela não conseguia sair daquele buraco em que ela mesma tinha se enfiado e cavado, tão confortável que, se ele fosse vísivel por outras pessoas, lojas de mobílias um dia ainda a pediriam que fosse trabalhar com eles?
Ela não era cheia de amigos. Tinha colegas. E de trabalho, já que não conseguia suportar seus vizinhos. Ela era tão sozinha, tão vazia... E ao mesmo tempo, tão cheia de si. Tão deploravelmente solitária, tão insuportavelmente imperfeita, tão devastada... Por que ninguém a notava? Por que nenhum cara a pedia para sair? Tão sonhadora... Depois de um único encontro, no qual ele ouviria e entenderia todos os seus problemas, ele já perceberia que estaria com a mulher de sua vida, a pediria em casamento e ela sonharia, de novo, em ir para aquela casa no campo, numa cidade onde as ruas eram pequenas e os carros eram poucos; onde as praças eram frequentadas por moradores honestos, não por vândalos ou mendigos. Todos os dias, acordaria e faria café para seu marido, que ouviria seus problemas sobre a vida naquele sítio e não no do vizinho.
Ela gostava mesmo era de reclamar. Achava-se acima de todos os problemas da humanidade, e consequentemente, de todos os seres humanos. Por isso era tão sozinha, tão vazia... E ao mesmo tempo, tão cheia de si. Por isso nunca sairia daquele apartamento de São Paulo, daquele emprego no escritório do centro, daquele mesmo cabelo castanho-médio que ia até a cintura, daquela saia social preta e aquela meia-calça da mesma cor.
Vazia, a vida era cruel. Cheia, a vida também seria cruel.
Vossa Mercê, afinal de contas, só queria mesmo uma dose de piedade.