sexta-feira, 19 de junho de 2009

Lantiremo

Ao passar pelo portão metálico e preto em formato de arco, observo o céu perfeitamente nublado. Meu dia de sorte, penso, ironicamente. Estou no lugar em que mais me sinto calma e o céu está da minha cor preferida, um cinza denso.
Aqui, neste cemitério, tenho amigos de verdade.
Muitos achariam que sou louca, ou simplesmente teriam medo de mim. Mas, desde os sete anos de idade, quando sonhei com um menino simpático de cabelos morenos me chamando para vir para cá, tenho paixão por isso tudo. Por esse lugar, pelas árvores, pela minha mediunidade, pelo céu nublado, por ele.
Sento-me, arrumando a saia do meu vestido vermelho e com rendas pretas de modo que pudesse me sentar sobre ela sob uma árvore de galhos secos e tronco grosso. Ajeito meu cabelo escuro, puxando-o para o lado esquerdo. Observo a paisagem, calmamente, observando todos os espíritos que ali estavam, vagando. Simplesmente andando, para lá e para cá. Alguns vão para reuniões mediúnicas, outros estão ainda não descobriram que desencarnaram, e simplesmente vagam perdidos nesse mundo imenso.
Quando, de repente, a visão do meu amado chega aos meus olhos. Usando a sua roupa de sempre, os cabelos ajeitados de lado, caídos sobre a testa numa franja perfeita. Poderia ser um modelo, se não fosse pelo fato de seu coração não bater à 10 anos.
-Oi- diz-me ele, com sua voz amargurada habitual.
-Oi- respondo
-Temos que conversar.
Congelo.Mesmo quando quem que você ama é um espírito, ainda é amedrontante ouvir tais palavras.
-Tudo bem... Conversemos.
-Vai ser meio complexo explicar isso.
-Tente- disse eu, exasperada.
Ele hesitou.
-Tenho que ir.
Compreendi de imediato. Eram as palavras que temera ouvir haviam seis anos. Sempre temera esse momento, e agora ele chegara.
Ele ia reencarnar.
Suspirei. Assim como as pessoas se vão, os espíritos também se vão.Senti minha respiração ficar fraca.
Não sabia porque estava assim; nunca pudera haver nada entre eu e ele. Eu sempre soubera disso.
Mesmo assim, não pude evitar que a lágrima idiota caísse.
-Onde? Quando?
-Uma família em Sidney. Estou indo agora, e nascerei em 8 meses e 19 dias.
-Boa sorte. -disse, sendo sincera, porém, entre soluços.- Espero que sua família seja boa.
Ele me abraçou. Mentalmente, claro. Eu senti seu abraço me reconfortanto e me acalmei.
-Nunca, em nenhuma outra vida, seu rosto sairá de minha memória, Isabella Smith. Eu te amo.
-Eu também amo-lhe, profundamente.
-Adeus, meu anjo de carne e osso.
-Adeus.
E ele se foi. Para nunca mais voltar, nem em meus sonhos, nem em vida real. Apenas no mundo espiritual, quem sabe, algum dia.
Se contasse minha amargura mais profunda e súbita a alguém, provavelmente estaria numa camisa de força dentro de 2 horas. Portanto, sofro em silêncio.

(Lantiremo: [latim] Descubra meus sinais)

2 comentários:

  1. muito foda![2]


    Por mais que pareça despretensioso, esse conto é muito bem escrito...carga emocional grande, sem ser forçado. Me parece que você conhece mais do demonstra...

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