terça-feira, 5 de abril de 2011

Vossa Mercê gostaria de uma dose de piedade?

Todos os dias, ela seguia sua rotina: acordar, escovar os dentes, tomar banho, café, ir ao trabalho. Trabalhava num escritório no centro da cidade de São Paulo, onde os carros, o barulho e os passos, não dormiam. Ela até que dormiria, se morasse numa cidade mais calma, onde as ruas eram pequenas e os carros eram poucos; onde as praças eram frequentadas por moradores honestos, não por vândalos ou mendigos. Talvez até tivesse um sítio. Uma cidade onde as pessoas realmente a ouvissem, quem sabe...?
Naquele dia, ela não queria seguir sua rotina. Queria uma mudança. Não do tipo "quero o dobro do queijo no meu lanche, por favor". Estava mais para "quero pintar meu cabelo de azul, colocar um piercing no nariz, e ter o olhar de todas as pessoas que entrarem por aquela mesma porta azul-clara do consultório de sempre". Claro que não o fez - não poderia arriscar perder o emprego. Então acordou, escovou os dentes, tomou banho, café, foi trabalhar. Como sempre fizera. Por que ela não conseguia sair daquele buraco em que ela mesma tinha se enfiado e cavado, tão confortável que, se ele fosse vísivel por outras pessoas, lojas de mobílias um dia ainda a pediriam que fosse trabalhar com eles?
Ela não era cheia de amigos. Tinha colegas. E de trabalho, já que não conseguia suportar seus vizinhos. Ela era tão sozinha, tão vazia... E ao mesmo tempo, tão cheia de si. Tão deploravelmente solitária, tão insuportavelmente imperfeita, tão devastada... Por que ninguém a notava? Por que nenhum cara a pedia para sair? Tão sonhadora... Depois de um único encontro, no qual ele ouviria e entenderia todos os seus problemas, ele já perceberia que estaria com a mulher de sua vida, a pediria em casamento e ela sonharia, de novo, em ir para aquela casa no campo, numa cidade onde as ruas eram pequenas e os carros eram poucos; onde as praças eram frequentadas por moradores honestos, não por vândalos ou mendigos. Todos os dias, acordaria e faria café para seu marido, que ouviria seus problemas sobre a vida naquele sítio e não no do vizinho.
Ela gostava mesmo era de reclamar. Achava-se acima de todos os problemas da humanidade, e consequentemente, de todos os seres humanos. Por isso era tão sozinha, tão vazia... E ao mesmo tempo, tão cheia de si. Por isso nunca sairia daquele apartamento de São Paulo, daquele emprego no escritório do centro, daquele mesmo cabelo castanho-médio que ia até a cintura, daquela saia social preta e aquela meia-calça da mesma cor.
Vazia, a vida era cruel. Cheia, a vida também seria cruel.
Vossa Mercê, afinal de contas, só queria mesmo uma dose de piedade.