segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Idiota.

Quando me encontraram em casa, naquele último dia de liberdade, não viram a Raiva e a Angústia ao meu lado. Só viram minhas lágrimas e aquele Idiota, caído e gemendo ensanguentado. Não gosto de lembrar dele, porque faz o Ódio querer a Vingança. E eles seriam um casal perigosíssimo. Agora faz uma semana que tudo aquilo aconteceu. Em sete dias, passei de vilã à vítima. Mídia nojenta, é. Quando o Idiota entrou em casa, não sabia que o Ódio estava dormindo. Ele não gosta de ser acordado.
Aí chegaram aqueles humanos fntasiados de justiceiros, os policiais. Minha vizinha mal-comida, depois de ter berrado por silêncio, chamou a polícia. Viram o Idiota caído ao chão e logo me acusaram. Humanos cegos! Por que só veem o que os olhos enxergam? Há tanto mais para ser visto, imaginado, pensado, sonhado. Há tanta coisa que não é "enxergável" e é visível. Tolos por natureza. Não viram o Medo ao meu lado, mascarado pela Raiva. Julgaram-me culpada. Dois dias depois, quando o Idiota confessou a invasõ e a tentativa de estupro, tiraram-me as algemas e me trouxeram ao hospital.
Não gosto de hospitais, deixe-me dizer. O reino do Medo e da Tristeza. Não, não gosto mesmo. Fui transferida e dizem vou ficar aqui mais mais três semanas, mas duvido que me liberem em menos de dois meses. Aliás, duvido até que me liberem algum dia. A mídia nojenta disse que sou louca, e o hospital sentiu-se obrigado a me deixar aqui e me examinar. Pelo menos o Idiota foi preso.
E eu também. Presa num lugar que nem gosto.
Presa num hospício. E acho que nunca vou sair.
Aqui começo uma nova etapa da minha vida. Tudo porque eu vejo coisas que os Imbecis não veem.
Eu sei que estou certa. Ainda provo isso para vocês. Vocês ainda vão entender tudo o que eu penso, e aí, quem sabe, um dia eu saia dessa caverna branca.
Ou não.
Deplorável.